25.3.26
Divisão do trabalho
21.3.26
Devagar, café
A ideia base - ou será antes a base da ideia? - é adormecer devagar, cozinhar devagar, ler, amar, sorrir, viver, olhar devagar. Morrer devagar, de certa maneira. Que o escorrega pelo qual se desliza seja o menos inclinado possível.
Verdade: qualquer que seja o declive não se o conseguirá subir. Só se desce. Mas pelo menos que se desça devagar. E que esse vagar infiltre tudo o que se faz.
Até o café ganha em ser feito lentamente.
19.3.26
Diário de Bordos - Vilarelho, Alto Minho, Portugal, 19-03-2026
O vinho chama-se Vale d'aldeia Grande Reserva Sousão e é de 2022. É muito bom, vinho português como gosto deles, taninos que ficam mas não magoam, corpo denso e fino... Parece uma mulher portuguesa, não é? Algumas.
Mas alguém morre com nada por fazer? Sorte...
Não sei. Chegou a vez do You want it darker porque já não há mais nada dele para ouvir e a resposta «é não, Leonard, não quero isto mais escuro nem estou pronto, não me importo de morrer e deixar um monte de coisas por fazer mas chateia-me deixar a carcaça em mau estado para os vermes que a hão-de comer.»
Hoje é o aniversário da minha primeira namorada. É uma das raras datas que retive nestes últimos cinquenta e tal anos.
Conhecem um poeta espanhol chamado Antonio Gamoneda? É das melhores coisas que a língua espanhola produziu e produziu tantas.
Ahora,
Melancolia? Lê Blake, meu caro. Cura-te isso mais depressa do que um paracetamol te cura a dor de cabeça.
«He who binds to himself a joy
But he who kisses the joy as it flies
18.3.26
Pequena nota à parte
Sesta, falhar, Cohen, Carson e outras coisas fúteis como o tempo e o espanto
16.3.26
14.3.26
Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 14-03-2026
Tive dois dias de sol e agora a normalidade regressou: chuva e frio até me ir embora. A minha previsão no avião estava portanto parcialmente errada e certa. Acontece frequentemente com as previsões feitas ab ante: às vezes acertam, às vezes falham e outras acertam e falham. A questão de quantificar cada uma dessas é ociosa. Pelo menos para mim, que aprendi faz décadas a conviver com a incerteza, o acaso e as coisas sobre as quais não tenho qualquer espécie de controle. (Nem quero ter, mas isso é outra história.)
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Fui comprar o queijo à queijaria Au Gruyère, também conhecida por Oberson, provavelmente a melhor queijaria de Genebra e arredores. Não sei. Para mim é a única, por isso não faço comparações. Espero com ansiedade que alguém me demonstre que estou errado e há uma melhor.
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No regresso passei pelo Globus, faltava-me pão e alho. Aquilo é como ir ao jardim zoológico, mas em vez de se ver macacos vêem-se ricos. Prefiro estes àqueles, e ainda mais quando se trata da parte feminina das respectivas espécies.
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De manhã vou beber um café e ler o jornal. É um hábito civilizado: ler o jornal de manhã no café. Felizmente em Genebra os estabelecimentos continuam a permitir-nos mantê-lo, apesar de haver cada vez menos títulos.
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Poucos, mas bons. Veja-se esta notícia:
"On aura tout vu.
On a voté la semaine passée en Argovie sur la limitation des radars fixes accusés de remplir les caisses de l’État. La loi est passée. Au fait, il y en a combien de radars fixes en Argovie? Un. Mais gouverner, c’est prévoir!"
12.3.26
Tendo sido, sendo
Esta cidade que é minha porque já foi minha e há coisas que sendo uma vez nunca deixam de ser.
11.3.26
Diário de Bordos - Avião Porto - Genebra, 11-03-2026
Povo trombudo e mal-educado, este meu. Não percebe uma ironia, não faz um sorriso que não seja por obrigação, nem quando tem o dever de cumprimentar o faz. Hoje um dos meus tabuleiros no filtro de segurança do aeroporto foi para o tapete secundário. Tinha o chapéu - um chapéu bonito, verde, da Fábrica de Chapéus, aba larga - e o saco do material fotográfico. Em vez de despachar aquilo o homem resolveu levar o tabuleiro antes do meu, vazio, para a parte da frente do tapete, deixando-me ali especado. Voltou sem uma palavra, pegou no tabuleiro, pô-lo à minha frente e eu, naturalmente, pego no chapéu e menos esperadamente levo uma descompostura porque não devia ter tocado em nada antes de ele me dar autorização. Vá para o raio que o parta, senhor, não lhe disse então porque não sou de peixeiradas e muito menos com trogloditas. Tão pouco o digo agora, que a coisa passou ao arquivo geral e já não penso no senhor do filtro de segurança do aeroporto e sim numa entidade mais vasta, esta porra deste povo de cobardolas carrancudos que mal têm uma cabo de chupa-chupa de poder se agarram a ele como se fossem imperadores do império austro-húngaro (se fossem, provavelmente seriam bem-educados mas isso é outra história).
Eu só exerço o meu direito à má criação - ou melhor, à rispidez - quando vejo erros de gramática daqueles imperdoáveis e de origens imperdoáveis. Hoje foi uma vírgula entre o sujeito e o predicado num convite para a apresentação de um livro! Com franqueza! Isso faz-se? Uma livraria (ou o editor, não sei quem redigiu aquilo) a dar erros de palmatória? E ainda há quem se admire da facilidade com que as nossas "elites" (aspas porque é irónico) adoptaram o AO90...
Sou um rapazinho bem-educado, mas tenho pouca tolerância para o excesso de vírgulas que se vê hoje em dia nos nossos textos. E menos ainda quando as pôem nos sítios errados.
Ainda agora acaba de dar meio-dia (toque imaginário, estou no avião para a minha neta) e já para aí vai uma série de incidentes. Vá lá que a miúda do bar do aeroporto era simpática e sorridente e riu-se e respondeu quando eu lhe disse uma piada. Foi entre o incidente no filtro e o da leitura do convite, de maneira não posso queixar-me muito, faço-o apenas para passar o tempo, a minha vizinha é gorda, antipática e adormeceu com um filme no telefone que pousou na mesa mas eu não olho, aquilo não tem som e ando com pouca paciência para filmes, já ler tudo o que tenho de ler (diferente de "para ler") é uma seca para a qual me preparo em Genebra, lá pelo menos tenho calma e não tenho tentações como a pastelaria Riviera, por exemplo.
As duas senhoras ao meu lado (estou na janela mas nem assim adormeço) são gordas e as duas da fila da frente também. Estamos a americanizarmo-nos, que desespero.
Uma lata de cerveja Moretti custa no avião seis euros e noventa e cinco cêntimos. Depois vendem produtos a "menos cem euros do que nas lojas físicas", aspas porque cito verbatim. O sacana do grego bem podia ir fazer companhia ao troglodita da segurança.
Os brincos da senhora do lado são feios. Pelo menos o que eu vejo, não sei se ela é adepta daquela opção estética de usar brincos diferentes, uma vez conheci uma senhora assim. Duas, aliás e este domingo vou ver uma delas, vai ser dia de santa fondue e ela é convidada por defeito, é a maior fã das minha receita, sem fécula. Não tenho opinião formada sobre essa escolha de brincos diferentes. Desde que sejam bonitos cada uma usa o que quer. Já nos homens é diferente: uma pequena argola de ouro na orelha esquerda a indicar que se passou o Horn à vela é recomendável. Fora isso, nada. Ainda falta uma hora para chegar e vou mandar o grego para o diabo, outra vez. Duas cervejas pelo preço de um almoço. Bom, pode considerar-se, com legitimidade científica, que duas cervejas são uma refeição. E além disso o preço é seis euros e oitenta e cinco cêntimos, não noventa e cinco. Volta, Psoriadis (?), estás perdoado.
Expliquei ao criado do avião que deviam aplicar às cervejas o mesmo desconto que aplicam aos perfumes. Nasci para exprimir os meus pontos de vista, sempre bem fundados em factos sólidos e não "políticos" como os do nosso ex-presidente, que de passagem se diga bem podia ir para o inferno também, pelo menos enquanto foi presidente. Agora é-me indiferente, tanto me faz que diga disparates ou que os faça.
Continua a faltar uma hora para chegar. Mudam os aviões, os donos deles, os destinos ou as partidas mas esta coisa de o tempo que falta não mudar permanece igual. Falta sempre a mesma quantidade de tempo desde a última vez que se olhou para o relógio. Pode a cerveja estar quase vazia quando há pouco estava cheia; pode faltar menos quilómetros; podem os minutos que se arredondaram ser mais, o tempo até estar no autocarro para casa da S. é sempre o mesmo (correctamente seria: até as rodas do trem de aterragem tocarem no tarmac. Nem sempre voo para os braços minúsculos de uma neta recém-nascida. Não faz mal. Estou cada vez mais tolerante).
Além de um brinco feio, do excesso de peso, de cabelos pintados e outras características, a vizinha tem uma argola na narina. Ainda não a tinha visto. Já do meu lado direito a paisagem é uniforme; cirrustratus e mais cirrustratus para eu não pensar que vou ter sol em Genebra. Estamos em Março, que diabo! O dia do Verão ainda não chegou. Verdade seja dita que me indifere bastante aonde cada um pendura o que bem quer e lhe apetece. Uma vez saiu-me na rifa uma senhora com uma argola no bico do seio, não me lembro se no esquerdo se no direito ou mesmo se nos dois. Não disse nada. Limitei-me a pensar que ninguém me obrigara a estar ali e que seria pouco provável que voltasse a estar, como talvez tenha acontecido, não me lembro bem, só para que se veja o pouco que ligo às argolas e assim, para além de achar aquilo feio e desconfortável.
"We'll be landing soon" é a frase mais bonita que oiço num avião.
Aterramos e uma parte do avião bate palmas. Nem sempre somos façanhudos tal como de resto nem sempre somos matarruanes. Só às vezes.
10.3.26
9.3.26
Pertença, clorofila
Não é a primeira vez que tento viver no campo. Uma vez fui viver para uma aldeola suíça, a oitocentos metros de altitude, no Jura. Também vivi em St.-Ursanne, no Jura, mas isso não conta. Quando estou embarcado também passo muito tempo em portos pequenos, mas isso também não conta. Refiro-me apenas aos sítios aonde fui viver, de armas e bagagem. Mértola só conta metade: nunca aí passei muito tempo mas a ideia era instalar-me lá. Ou seja: viver em Vilarelho (ou Caminha, é ao lado) só parcialmente é uma novidade. À qual me habituo, pouco a pouco e com alegria. Já não fico zangado quando a loja de bicicletas está fechada apesar de serem horas de abertura - apanhar aquilo aberto é como ganhar à raspadinha, suponho. Às vezes está, outras não. Como o senhor não responde ao telefone, a solução é simples: "não telefone, vá"; se estiver fechado, volte. Já digo fino tantas vezes como imperial. Não me espanto quando vou a um café e o dono não sabe o que é um LBV ou um Irish Coffee. Não há uma livraria mas há uma papelaria que vende livros. Ainda não encontrei um restaurante que me encha as medidas, como o saudoso Tamuge, em Mértola - ainda sendo a palavra-chave. Por outro lado, sou cliente da mercearia Crespo, da garrafeira Prova Cega, do restaurante Cais, da lavandaria que fica perto do mercado e cujo nome não sei mas é óptima, da casa Lubra logo ali ao pé, da Camitintas, do café Riviera... Casas respeitáveis e de qualidade. Gosto da paisagem daqui - das paisagens, no plural: são várias. Gosto das pessoas com quem me cruzo. Gosto da casa aonde tenho as armas e a bagagem e imagino-a facilmente no futuro, quando estiver mais quente e com mais iconografia nas paredes e eu menos ansioso. Gosto da pintura do Tiago Taron, que vejo frequentemente, cada vez que passo pela Rua Direita. Gosto dessa rua, do rio Minho, da praça a que chamam Terreiro, da estação de comboios. Há uma data de coisas de que gosto e não tarda mudo a minha residência oficial para aqui. A minha bicicleta BH Glasgow Vintage já se habituou às ruas e estradas de pedras, tão bonitas de se ver e tão chatas de pedalar, e eu à ideia de que a minha próxima vida - estatisticamente terá cerca de quinze anos - será aqui, entre a serra d'Arga e o Minho.
Não voltarei a apanhar uma intoxicação de clorofila como a que apanhei em Bassins, que me obrigou a regressar ao centro de Genebra de urgência. Dois ou três dias em Lisboa, uma breve passagem pelo Porto, uns dias à beira do lago Léman e fico com o sangue limpo de verdura. E cheio de azul, com umas semanas de mar.